Navio Negreiro
Pobre Negreiro, perdido estava, naquele mar descontrolado, nervoso com toda aquela tempestade e ventania.
Mal sabem, os que ali estão, que nem cor, nem raça mudarão o fato de que ninguém se salvará. E os que estão apenas para sofrer preferem no mar morrer, a surrado e humilhados por aqueles que tudo têm e tudo podem.
“Do espanhol as cantinelas / Requebradas de langor”, “Da Itália o filho indolente / Canta Veneza dormente / - Terra de amor e traição”, “O inglês – marinheiro frio / Que ao nascer no mar se achou”, “O francês – predestinado - / Canta os louros do passado / E os loureiros do porvir”, e do Negro?, o que é que se diz?, e as virtudes dele? Oh, Céus!, o que é que a riqueza e o poder não fazem com uma pessoa? Faz-se o verdadeiro inferno. Dançando e cambaleando, apanhando e sendo surrado, em meio d’um mar de sangue, tanto sangue, não havia como fugir. Homens, mulheres, crianças mortas de fome, todos apanhando, sofrendo, sem motivo algum, bastava serem negros. Música?, ali não havia, ouviam-se gritos, o estalar de cada chicote em cada um daqueles, ouviam-se também, risos, por sinal, muito irônicos. Pobres coitados, aqueles simples, fortes e bravos, e hoje, meros escravos, sem a mínima chance de uma simples reação, um simples falar e tentar entender tudo aquilo que se passava.
Era melhor que tudo acabasse por ali mesmo, não era mais suportável tudo aquilo. Logo acabou-se tudo, o mar os fez pagar, mas levou vários outros juntos, e não restou ninguém pra nos contar o que naquele dia teve que passar.
Co-autora: Leila